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Historinhas minhas
 


Meu Baile de Formatura

Antes de chegar no baile é conveniente voltar uns meses na história.
Quando eu estava na terceira série do ginásio e ainda morávamos em Pinheiros, mamãe e meu padrasto compraram um casa no Jardim da Saúde, perto do Ipiranga.
Quem nos vendeu a casa foi "seu" German, um catalão super boa gente que, não por acaso era pai do Hélios, aquele que foi meu noivo caipira.
Eu me apaixonei pelo Hélios/Gregory Peck à primeira olhada. Ele, que sabia o sucesso que fazia, não só comigo, mas com todas as garotas do bairro,fazia "o" doce. E nos dois anos seguintes eu ma atirei nas poças d'agua pra ele passar por cima, lambi o pó das calçadas antes dele passar, e nada! O danado não me dava a menos bola.
Passei pelos terceiro e quarto anos do ginásio e, finalmente, chegou o momento das comemorações: missa pela manhã, sessão solene à noite e o baile, na noite seguinte.
Meu parceiro na valsa da formatura era meu irmão, mas convidei o Hélios para o baile e, para meu espanto e encanto, ele aceitou.
Aceitou mas levou um amigo.
Baixinho, moreno com os cabelos lisos colados ao crânio, bigodinho fino de cantor de tango. Não se parecia com nenhum ator que estivesse na moda, mas era bom dançarino e "grudou" no meu cangote o baile todo. Ah! E era de Barcelona; e bem bonitinho. Apresentou-se: Petit!
Achei o nome estranho, mas era esse mesmo um dos sobrenomes do moço. Ele ainda é conhecido por esse nome nos meios de marketing e propaganda.
Ele quis saber o meu nome e dei meu apelido: Ada, eu disse. E foi um encanto total. Sua resposta: Ah! Só podia ser. Você sabe o que significa seu apelido na minha terra? Fada! na minha terra, hada é fada! E você, bonita como é, só poderia ter esse nome.



Escrito por ac.polari às 16h16
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Meu Baile de Formatura (cont.)

.../...

Dançamos bastante, praticamente a noite toda. Vez por outra meu irmão vinha me resgatas dos braços do espanholito, o que me deixava danada da vida, porque eu não queria ser resgatada.
O baile acabou e ficamos acertados de nos vermos novamente. O baile aconteceu numa quinta-feira. Passaram-se vários sábados e domingos e eu ficava naquela expectativa de que ele fosse fazer uma visita ao amigo e conterrâneo e desse uma "esticada" até a minha casa, mas... nada! Comecei a pensar que esse fosse um costume de catalãos: encantar uma pessoa com muita lábia e depois sumir no mundo. Mas com o tempo acabei por concluir que quem não sabia nada dessa arte de namoro e encantamento era eu.
Não ouvi mais se falar dele por muito tempo.
Mas, e sempre tem um mas, certa manhã, ouvindo um programa de rádio enquanto fazia meu serviço de casa, ouvi alguém se referir a um certo "Petit" e as orelhas cresceram!
Parei o que estava fazendo e prestei atenção. Pois não é que o rapaz recém chegado de Barcelona lá pelos idos de 1955, o rapaz que fizera de meu baile de formatura uma noite cheia de sonhos e encantamento, era agora um cara importante no mundo da propaganda? Fiquei feliz por ele. Na noite em que nos conhecemos ele disse que tinha vindo ao Brasil para fazer sucesso. E conseguiu!
Daquele dia em diante passei a dar mais importância às compras, vendas e fusões das empresas DM9, DPZ e tantas outras. Sempre havia uma notícia sobre um sucesso do meu amigo, namorado por uma noite de baile, hoje um homem importante no mundo do marketing e propaganda.
Acho que já se aposentou, mas sei que sua filha está seguindo seus passos. Tenho certeza de que não se lembrará de mim, do baile e nem do Hélios, que o levou junto ao baile para que ele não ficasse sozinho neste país em que não conhecia ninguém.
O sucesso, em geral, apaga de nossa memória gente que passou por nossa vida e não fez ponto final.



Escrito por ac.polari às 16h15
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O nome de minha filha

No "mico" anterior, contei que o segundo correspondente que conheci tornou-se meu marido. Já contei também, que ele escolheu meu nome na tal revista porque ele era ADALberto e eu ADALgisa...
Então, vamos aos fatos:
Éramos ambos de famílias "remediadas", como se dizia sobre a classe média daqueles tempos. Nem ricos, nem pobres e com um certo nível intelectual...Acreditem: exisita gente assim há meio século!!!
Por sermos de famílias remediadas, nossas mesadas,a princípio, e depois nossos salários, eram sempre reduzidos. Quando as carteiras ficavam magrinhas a gente ia para a cidade nos domingos à tarde e, sem l'argent" para um cineminha, passeavamos pela Praça da República, seguíamos pela rua Vinte e Quatro de Maio até o Viaduto do Chá e ali, sentados num degrau da entrada do Tabelião Veiga, sonhávamos e fazíamos planos para o futuro ouvindo "A Canção de Mouliln Rouge" num porta-pó com caixa de música que ele me havia dado de presente.
E construíamos nossa casa, e a mobiliávamos, e imaginávamos as carinhas que teriam nossos filhos...Essas coisas que antigamente os namorados sonhavam e que não sei se os namorados de hoje sonham. Se não o fazem estão perdendo o mais lindo pedaço de suas vidas...
Entre nossos sonhos estava, claro, o nome de uma filha que teríamos. Não sabíamos então que seria a primeira. E foi ele, com uma lógica irrefutável que propôs:
"Nossa primeira filha vai se chamar Dóris, em homenagem à Doris Day, porque foi através dela que nos conhecemos. O nome do meio será Cecília, porque você se chama Cecília. E, com meu sobrenome, Tucciarelli, completaremos nossa homenagem ao DCT (Departamento de Correios e Telégrafos), porque afinal, nosso amor começou por correspondência." Perfeito!
E foi assim que o nome de minha filha foi escolhido.



Escrito por ac.polari às 17h43
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Um mico do passado

Lá pelos meus 16 anos, mandei meu nome para uma revista de cinema que se chamava "Filmelandia" e que tinha uma seção chamada "O Clube do Fã". Claro, coloquei-me como fã de Doris Day, pois era, sou e sempre serei fã dessa mulher sensacional. Por que será que minha filha mais velha se chama Dóris? (NUMA PRÓXIMA VEZ CONTO ESSA HISTÓRIA) Bem, recebí cartas de vários estados do Brasil e até uma de Luanda, naquele tempo, África Ocidental Portuguesa, de um tal Abílio que o que queria, na verdade, era arranjar casamentos por procuração para ele e seus amigos. Desse descartei-me logo.
Dentre meus 16 correspondentes, dois manifestaram o desejo de me conhecer pessoalmente. O primeiro com quem me encontrei chamava-se Acácio e era muito gentil mas, coitadinho, feinho, feinho...
Fomos ao cinema, tomamos um guaraná, até conversamos um pouco, mas não consegui disfarçar minha decepção, porque o moço nunca mais me convidou para sair. Continuamos a nos corresponder por algum tempo. O segundo que conhecí, casei com ele. Pra ver que a sorte da gente, é a gente que faz.
Mas voltando ao primeiro.Já não o via há mais de cinco anos, quando, subindo as escadas rolantes da Galeira Prestes Maia ( hoje é reduto de bandidos), ví um rapaz que "era o Acácio". Cheguei perto dele, puxei-o pelo braço fazendo-o girar 180 graus e ficar de frente para mim.
Ele me olhou como se eu fose marciana, com aquela cara de "te conheço?". E parecia não me conhecer mesmo!
Mas era a "cara" do Acácio e eu me recusava a acreditar que não fosse ele. E as pessoas passando e se divertindo com a situação. Eu queria que o chão se abrisse!
Final da história: o moço tirou a carteira do bolso e me mostrou os documentos para provar que seu nome não era Acácio. E ainda me pediu desculpas por não ser.
Ô MICO!



Escrito por ac.polari às 17h41
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Surpresa na noite de núpcias

Estavam de casamento marcado e a data estava chegando.

Nicola e Sarita iam morar numa casinha que haviam alugado perto da casa da tia de Sara. Já que a tia e os primos e primas eram os únicos parentes dela no Brasil, e Nicola não tinha um parente sequer por estas bandas, essa parecia ser a solução mais óbvia.

Já haviam mobiliado a casa e Nicola insistia sempre com a mesma pergunta: "Já levou tudo o que precisa para a casa?"

E Sara respondia, intrigada: "Estou levando, mas ainda não terminei. Por que?"

A réplica também era sempre a mesma: "Nada. Só curiosidade."

Necessário esclarecer que, em nome do decoro que a época exigia, as chaves da casa ficavam em poder da tia, e que Sara e Nicola nunca iam à casa juntos, sem que mais alguém estivesse junto "segurando vela".

Depois de muita pergunta dele sobre, se ela já havia levado tudo para a casa e muita insistência dela em saber o por que da pergunta, Nicola explicou que quando ela não precisasse mais ir à casa, ele ia precisar da chave, para levar para lá algumas coisas dele. Satisfeita a curiosidade de Sara, ele esperou que ela lhe desse o sinal verde para pegar as chaves da casa e ir lá "levar algumas coisas dele".

Passou-se a última semana antes do casamento na igreja. No cartório já estavam casados; Nicola pegou a chave da casa e deixou aviso bem claro, para a tia, que Sarita não deveria mais ir à casa até o dia do casamento, quando iriam para lá os dois juntos e casadinhos. A tia "sabia" de alguma coisa, mas negava de pés juntos que soubesse. E Sarita estava apreensiva e curiosa: Que será que Nicola tanto queria fazer na casa e que ela não podia saber?

Chegou o dia do casamento. Passada a cerimônia, a pequena recepção na casa da tia, com a presença das primas, primos e do casal de tios, Sara e Nicola foram para seu próprio lar, para seu começo de vida a dois.

Ao chegarem a casa estava às escuras. Nicola abriu a porta da sala e ajudou Sara a entrar, sem acender as luzes. Quando ela esta no centro da sala as luzes se acenderam e o mistério foi desvendado:

A casa toda, desde a porta da entrada até a saída para o quintal, passando por todas as suas dependências, estava coberta de vasos de flores!

Meu sogro sempre foi umromântico incurável!



Escrito por ac.polari às 17h19
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Sarita e Nicola

Sarita e Nicola

Sarita
Na verdade Sara Maria da Purificação Gonçalves, nasceu em Bragança, Portugal "a terra dos reis", como costumava explicar.
Não deu muita sorte, pois ao nascer, em um frio mês de novembro, sua mãe, muito fraca, ficou muito doente e morreu pouco mais de um mês após seu nascimento.
Sarita, então, foi levada para a aldeia onde moravam seus avós maternos, onde a criou sua avó. Sarita contava que era embrulhada em cobertores e dormia num cesto de vime perto da lareira para suportar o imenso frio do final do ano.
Com a morte da avó, ainda com seus nove anos, voltou para a cidade a morar com seu pai, a essa altura já envolvido com uma segunda mulher e dois filhos, que não se agradava nem um pouco nem de Sarita, nem de sua irmã mais velha, Maria que havia ficado com o pai todo aquele tempo.
Nos dez anos que se seguiram ela e a irmã conviveram com a madrasta como puderam, até que, aos vinte e poucos anos, Maria se casou e Sarita que não queria ficar sem a irmã naquela casa em que se sentia indesejada, inventou de vir ao Brasil visitar uma tia que morava no Canindé, bairro pobre de São Paulo.

Nicola,
Tinha esse nome por ter nascido na pequena cidade de San Nicola Arcella, na Calábria, Itália, e pouco se sabia sobre seu nascimento e da maneira como cresceu. Tinha dois irmãos e uma irmã, que morreu muito jovem e que todos diziam ser santa, porque havia sempre um leve odor de rosas em seu quarto de doente.
Nicola falava pouco sobre sua vida anterior à vinda ao Brasil. Deixou escapar, entre uma conversa e outra, que aos dezenove anos se apaixonara por uma espanhola e seu irmão mais novo lhe roubara a namorada. Se algo mais se passou jamais se saberá porque ele levou ao túmulo sua história.
...\...



Escrito por ac.polari às 18h56
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Sarita e Nicola (cont.)

.../...

O que se sabe, e ele contava com um certo misto de orgulho e tristeza, é que, depois da briga com o irmão, que parece ter sido coisa muito feia, ele silenciosa e calmamente preparou sua saída da casa dos pais e da Itália.
Contava que, na véspera de seu embarque para Nápoles para embarcar no navio, já com as malas prontas e na hora do jantar, disse:
"Quero aproveitar o fato da família estar reunida para me despedir de todos. Parto amanhã para o Brasil e vou como imigrante, para ficar."
E veio, e ficou. Veio para São Paulo onde começou a trabalhar.
Aproveitava os domingos para passear pela cidade,então pouco mais que uma província.
Num domingo à tarde foi conhecer o Parque Shangai: um parque de diversões que ficava ali pelas bandas do Mercado Municipal da Cantareira. Dando umas voltas pelo jardim viu uma moça esguia e loira, de olhos castanhos, cor de mel. ela passeava com sua prima, filha de uma tia que morava no Canindé. Era portuguesa e não deu a mínima confiança a Nicola.
Mas ele "fincou pé" na idéia de saber mais sobre ela. Esperou que as moças saíssem do parque e tomassem um bonde, e tomou o mesmo bonde. Desceu no ponto em que elas desceram e as foi seguindo até ver em que casa elas entravam.
E então começou a fazer "plantão" diante da casa até que Sarita lhe desse atenção.
Seis meses depois estavam casados e esse casamento durou quarenta e três anos. Podemos dizer que "foram felizes até que a morte os separou", pois Sarita morreu.
Sarita e Nicola foram os pais de meu primeiro marido.



Escrito por ac.polari às 18h55
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Quem meu filho beija...

O ditado é velho mas comigo funcionava.
Mamãe separou-se aos 34 anos e era uma mulher vistosa, como se dizia na época. Tinha o corpo da moda: violão. Seios fartos, mas não em excesso, cintura fina e quadris largos.
Mamãe não se achava bonita, mas acho que o que lhe faltava era um bom "banho de loja" completado por um "dia da noiva" em salão de beleza. Ela não tinha dinheiro para se cuidar, mas dentro de suas possibilidades, vestia-se e se pintava com cuidado e sem exagero.
E chamava a atenção do sexo oposto, mas não opositor.
Ao separar-se de papai fomos morar na casa de meu avô. E os primeiros cidadãos preocupados com o bem estar de mamãe e ansiosos por ajudá-la no que precisasse foram alguns respeitosos amigos de meu avô, que assim que foi informado por mamãe do interesse dos abnegados senhores, os pôs para fora de casa aos palavrões. Fim de belas amizades...
Mas sempre aparecia mais algum interessado na bela dona Aurora, professora inteligente, funcionária categorizada do serviço internacional dos Correios e Telégrafos.
O cara vinha se chegando sempre em horários estratégicos como o horário do almoço, do cafézinho ou da saída do trabalho.
Eu ia à escola pela manhã e passava as tardes na sala 2 do segundo andar do edifício dos correios, na avenida São João. Era a sala onde mamãe trabalhava.
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Escrito por ac.polari às 19h50
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Cont.

.../...

Mamãe não queria que eu fosse para casa porque morávamos em um bairro afastado do centro e começavam a pipocar casos de ataques e estupros a crianças. Então eu ficava a tarde toda no correio. Fazia a lição de casa, "ajudava" levando os processos para as mesas que mamãe me indicava e até protocolava as entradas e saídas de processos. Ás segundas e sextas-feiras ia para a aula de balé no Teatro Municipal, das 17:00 às 18:00 horas. Depois voltávamos para casa juntas.
Os pretendentes de mamãe logo começavam a me fazer vontades (quem meu filho beija...) para agradar minha mãe. Se a convidavam para um café, logo me ofereciam alguma coisa. Esse era o meu momento de escolher algo de que tivesse vontade mas não tinha coragem de pedir à minha mãe porque sabia que ela não podia sair do orçamento.
Graças aos enamorados de minha mãe (que nunca deixava o "namoro" ir muito longe), ganhei muito guaraná, chocolate, doces e o que eu amava de paixão, mas que era muito caro porque não se produzia no Brasil: uvas tipo "Itália" brancas, escuras, rosés...
Ah! como eu gostava desse ditado:
Quem meu filho beija minha boca adoça.



Escrito por ac.polari às 19h49
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Dia de pagamento

Depois da separação moramos quatro anos na casa do vovô e depois mamãe alugou um barraco e fomos morar só nós três: mamãe, meu irmão e eu.
Quando digo um barraco não estou exagerando. Era um quarto feito de tábuas com chão de tijolos. E uma cozinha e um banheiro ridiculamente pequenos, de alvenaria. Ficava em um quintal onde moravam mais duas famílias e o uso do tanque era dividido entra as três famílias. (Imaginem como fundo musical, Saudosa Maloca, do Adoniran Barbosa).
A vida era dura porque papai não ajudava em nada e mamãe tinha que arcar com todas as despesas. Até meu irmão, logo que completou os 14 anos, foi trabalhar no Correio, como mensageiro.
Logo no começo do mês mamãe fazia as compras do mês, na caderneta, claro, pagava todas as pequenas dívidas e começava a fazer novas: todas as colegas do Correio, onde ela também trabalhava, emprestavam um pouco de dinheiro a ela para nos ajudar a passar o mês. E no dia do pagamento ela reembolsava todas as amigas e começava tudo de novo...
Mas o dia do pagamento tinha um encanto:
Logo cedo, antes de sair para o trabalho, mamãe separava um vestido, meias, sapatinho limpo para mim e me deixava avisada do que vestir após o banho para ir encontrar com ela e o Alex no velho edifício dos Correios e Telégrafos, na avenida São João.
Eu ia para a escola pela manhã, voltava pela hora do almoço, esquentava a minha comida, almoçava. E depois da louça lavada e a lição de casa feita ia tomar o banho para ir ao Correio. Chegava sempre faltando meia hora para mamãe sair e meu irmão terminar seu dia de serviço.
Então, os três juntos, saíamos do prédio, atravassavamos a av. São João e íamos à Leiteria São João ou à Leiteria Paulista para tomar chá com bolo e chantily com morangos.



Escrito por ac.polari às 18h39
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Casa com ela, compadre.

Meu bisavô, Antônio, que não tive o prazer de conhecer porque morreu antes que mamãe se casasse, era, segundo mamãe, um homem caladão e taciturno.
Já bastante idoso, costumava sentar-se, nos finais de tarde, à porta da casa e ficava conversando com outros velhos seus amigos, na maioria italianos.
Era um hábito dos antigos juntarem-se sempre a pessoas vindas de seu mesmo país, de preferência, de sua mesma região. Isso era comum entre italianos, espanhóis e portugueses. E me parece que entre outras raças que imigraram para cá.

Vô Antônio era viúvo e costumava conversar com os amigos sobre sua vida na Itália, antes que viesse para o Brasil com a mulher e alguns filhos. Não falava muito de sua vida de casado; era tímido.

Mas um dia, nem se sabe por que ou como, o assunto surgiu e meu "bisa" logo mostrou que sabia surpreender. Parece que saber surpreender é mal de familia, na minha.
Estava-se falando sobre a idade em que um homem devia casar e ele foi logo dizendo que um homem devia casar somente quando tivesse muito juizo porque "una donna e banbini" dependeriam dele.
Ele, por exemplo, tinha se casado aos trinta e oito anos. E com uma moça de dezoito. à pergunta dos amigos sobre alguns detalhes mais, explicou:
"Quando eu tinha 20 anos, uma aparentada da família que me criou - vovô era órfão - me pediu que batizasse sua filha, e eu concordei."
Terminada a cerimônia, enquanto comiam "una bella marronada" comemorativa, a mãe da garotinha sugeriu:
"Agora, compadre, o senhor podia esperar ela crescer e casar com ela."
Ajuizado e obediente, meu bisavô concordou novamente e esperou a bambina fazer dezoito anos e casou-se com sua afilhada.
Você conhece outra família que tenha fato semelhante?



Escrito por ac.polari às 20h24
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Tempos de Purgantes

Eu estava no primeiro ano escolar e era costume, ou melhor, era lei, que a gente tomasse purgante na escola uma vez por ano.
Acreditem, na década de 40 as coisas eram assim mesmo. O governo decretava e as escolas cumpriam. Era preciso acabar com a verminose infantil, nem que para isso se acabasse com as crianças também.
Funcionava assim: Uns dez dias antes as professoras iam "preparando" os alunos para o grande acontecimento. Elas nos diziam que era um remédio para matar os vermes da nossa barriguinha. Que deveríamos ir em jejum na data determinada e levar uma laranja "bahia" (aquele do umbigo de fora), já descascada e cortada ao meio e uma xícara de café. A laranja serviria para "tirar o gosto" do remédio. E todo mundo ficava numa expectativa apavorante porque sempre tinha alguém que já tinha tomado o tal remédio e contava que era horrível.
Para mim tudo era novo. Era o meu primeiro ano escolar e eu nada sabia das coisas. Tonta e crédula como sempre fui, fui para a escola cheia de entusiasmo com a minha laranja descascada e cortada; e mamãe , que já sabia das coisas, atrasou-se no trabalho para ir comigo. Ela levava a xícara que iria conter as "guloseimas".
O pátio do recreio estava lotado de pobres coitados como eu. Parecíamos ovelhas seguindo para o matadouro: todo mundo com medo, mas tinha que ir. Em frente a uma das paredes do muro, alguns panelões com o óleo de rícino e outros com um forte chá de erva de bicho.
E nós, os torturados, seguiamos em fila para o "sacrifício". Xícara na mão esquerda e metade de uma laranja na direita. Uma das professoras derramava uma conchinha de chá na xícara e outra professora completava com uma conchinha menor de óleo de rícino. A gente bebia aquela gororoba e em seguida chupava a laranja.
Ô coisa ruim! O resultado imediato todos sabem: era purgante! O resultado a longo termo é que mamãe teve que jogar a xícara fora (o cheiro nunca saiu) e nunca mais suportei laranja bahia.



Escrito por ac.polari às 19h06
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Tio Régulo

Régulo! Isso lá é nome que se dê a um bebê?
Porque, é claro, dava-se nome aos filhos logo que nasciam, como ainda hoje se faz.
Pois meu bisavô teve a coragem de dar o nome de Régulo Leonardo a um dos irmãos de meu avô.
E ninguém o chamava de Leonardo. Chamavam-no Régulo, mesmo. Na verdade, com essa mania que o vêneto tem de "facilitar" as coisas, o coitado era chamado de Régo mesmo.
Tio Régulo vivia no interior, em sua fazendinha. Era doido pra mexer com as moças e muito brincalhão. Quando mamãe estava em férias da escola normal sempre ia com uma ou duas amigas passar uns dias na fazenda e o tio gostava de recebê-las e dizer suas graças.
Por ter sido sempre conhecido através de sua alegria, todos estranharam, anos depois, quando ele começou a ficar tristonho e meio calado. Sabendo que o tio não estava bem, mamãe foi visitá-lo.
Ele estava em sua casa na cidade, em vez de estar na fazenda, como era seu hábito. Logo que mamãe entrou na rua em que ele morava, viu-o parado no portão, apoiado ao muro. 
Chegou e o cumprimentou tomando-lhe a bênção, o que era questão de honra para o velho. Se um sobrinho não lhe tomasse a bênção ele ia direto ao pai ou à mãe do "malcriado" para queixar-se. Logo em seguida, mostrando preocupação pelo estado de saúde do tio, mamãe perguntou:
"A prima Aurora me disse que o senhor está meio acabrunhado, tristonho... O que é que o senhor tem, tio?"
E a resposta, naquele velho sotaque italiano, abrindo bem o som das vogais, não se fez esperar. Tio Régulo deu um suspiro profundo e respondeu:
"Oitenta áno".
E mais não disse, porque nada mais lhe foi perguntado...



Escrito por ac.polari às 23h24
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Como? Parentes de Perón?

Assim é, pelo que parece.
A história do passado de minha família está cheia de confusões.
Meu bisavô, que se assinava Scatolin era, na verdade, Bôrtolo. Perdeu os pais muito cedo, foi criado por uma família Scatolin e adotou o nome.
Quando me bisavô saiu da Italia com a esposa e filhos (muitos), veio com uma irmã, Ângela Perón (sem dúvida, Perone, mas os vênetos adoram comer a última letra das palavras), e o cunhado dela, que veio a ser o pai de Juan Domingo Perón, o ditador argentino.
Ângela era muito jovem, tinha apenas 16 anos, mas já era viúva e tinha uma filhinha, Santina. Sua vinda para a tão sonhada "América" tinha destino certo: Argentina, junto com seu cunhado e cunhada, que cuidariam dela para que zelasse pelo nome do falecido, claro.
Mas, como já diz o velho ditado, "O homem põe e Deus dispõe". Tudo pensado, estudado e planejado, puseram-se num navio a caminho da América. Meu bisavô ficaria em São Paulo com a família, e os Perón seguiriam viagem para a Argentina.
Só que... tia Ângela veio a se apaixonar loucamente por um dos marinheiros em serviço no navio e esse marinheiro iria deixar o barco em Santos para se dedicar a outro tipo de trabalho em terra firme. E quando chegou a hora de se despedir do lindo marinheiro, bateu o pé e firmou residência em São Paulo já não mais viúva e sim casadinha com o marujo desistente do mar.
Claro está que os Perón que foram para a Argentina passaram a desconhecê-la e à sua filha Santina que, uma vez, quis fazer o reconhecimento do ditador e não conseguiu passar nem pela calçada da Casa Rosada!
Pelo jeito a família Perón nunca aceitou a teimosia de Ângela.


Escrito por ac.polari às 19h12
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Posso não ter em cima...

Como eu já disse antes, a casa de meu avô Lorenzo era parada obrigatória para a sobrinhada que vinha do interior passear em São Paulo ou tentar uma melhora de vida com um emprego na capital.
Com Olívia não foi direrente.
Ela era filha de um cunhado de vovô, assim como uma "prima torta"; nem tinha o sobrenome da família, mas isso não a fazia ser considerada menos sobrinha de vovô.
Olívia veio de Brotas para a capital para arranjar trabalho e ficar em São Paulo e enquanto não se acomodava em um lugar só seu, morou uns tempinhos conosco na casa de vovô.
Por aquele tempo os cuidados com os dentes não eram lá essas coisas, principalmente em lugares distantes de centros urbanos, e Olívia muito cedo perdeu os dentes da arcada superior. Só eram verdadeiros os inferiores. Muito moça já usava dentadura postiça e meus tios costumavam fazer piadas do tipo "é mentira que não se pode assobiar e escovar os dentes ao mesmo tempo. A Olívia pode."
Num domingo depois do almoço, estava o tio Rodolfo se aprontando para sair, quando Olívia perguntou a ele o que estava fazendo.
"Estou escovando o que você não tem", respondeu o tio.
E ela,mais rápida do que um raio:
"Ah! Posso não ter em cima, mas eu tenho embaixo, seu bobo".


Escrito por ac.polari às 19h09
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