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Historinhas minhas
 


Uma amiga perdida

Quando entrei para a Escola de Belas Artes de São Paulo, hoje Faculdade de Belas Artes, era ainda muito jovem para participar do ambiente das Artes Plásticas. Tinha apenas 15 anos e me espantava com tudo. Para ser bem verdadeira, quase me escandalizava com tudo.

Não há como negar, eram outros tempos. Tudo feio, tudo tabu, tudo proibido para "mocinhas de família" E eu era a mocinha mais nova de toda a escola. Quem chegava mais perto da minha idade era uma colega da família Matarazzo, que tinha 18 anos, mas eu não era amizade das mais indicadas para ela, que estava sendo treinada para ser a perfeita esposa de algum ricaço importante.

Dentre minhas colegas do curso de escultura havia uma jovem senhora de 32 anos, chamada Eduwirges, que chamávamos Edu. Casada com um radialista desconhecido e incapacitada de ter filhos, era uma dessas pessoas que escondem sua mágoa rindo muito, contando piada e fingindo ser extremamente feliz.

Edu sempre brincava com as amigas mais chegadas dizendo que um dia se mataria e depois de morta iria no quarto de cada uma dar-lhes um sonoro tapa na bunda, enquanto estivessem dormindo. Ninguém a levava a sério. Edu era tão brincalhona...

Até o dia em que ela chegou na escola imensamente triste e desolada por ter descoberto que o marido tinha um filho com uma de suas amantes. Amantes ela até perdoaria, mas o filho...isso não dava para engolir.

As amigas fizeram de tudo para distraí-la e, pelo momento, pareceu ter adiantado. No final da aula todas se despediram e uma delas prometeu que no dia seguinte, sábado, assim que chegasse de Santos, onde tinha compromisso com amigos, lhe telefonaria para combinarem alguma coisa.

Ela pretendia chegar a São Paulo lá pelas três horas da tarde, mas acabou se demorando mais e chegou às seis. Ligou para Edu e não houve resposta. Pensou que ela talvez tivesse saído para se distrair.

Segundo a autópsia, Edu havia tomado guaraná com formicida por volta das cinco horas da tarde.



Escrito por ac.polari às 20h32
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MICOS QUE A GENTE PAGA

Este não foi meu, felizmente.
Quando mamãe e meu padrasto decidiram morar juntos ainda vivíamos um tempo de muito preconceito contra casais juntados". Aijnda era o tempo do "até que a morte os separe", porque "O que Deus uniu o Homem não separará".
Então ficou decidido que iríamos morar no Jardim da Saúde, um bairro na zona sul de São Paulo. Bairro novo, distante do centro, porque naquele tempo não havia metrô, (imaginem!) e chegar de um lugar a outro era difícil e demorado. A vantagem de morar num bairro distante era estarmos bem longe das línguas de trapo e dos apontadores de dedos.
Havia outra vantagem: Jardim da Saúde, Bosque da Saúde (bairro próximo), Vila Morais e outros bairros ali em volta estavam cheios de casais iguais à minha mãe e seu companheiro. "Pidocchi rifatti", como os chamava meu padrasto, ou seja, piolhos refeitos. Gente que mudava de vida e ia morar onde ninguém os conhecesse para começar tudo de novo.
Meu padrasto, que era muito metido, enfiou-se logo na Sociedade Amigos do Jardim da Saúde. E foi logo conseguindo um cargo de Conselheiro na diretoria. Como apresentava sempre idéias e soluções interessantes, logo granjeou a antipatia do presidente, sr. Darcy. Chegaram mesmo a ter uma discussão séria por causa da forma como o sr. Darcy pagava as contas da associação: quando havia dinheiro em caixa que estava destinado ao pagamento de outra conta e o saldo não dava para pagar, por exemplo, a conta de luz, ele se recusava a usar o dinheiro do caixa e fazia coleta entre os demais membros da diretoria, com a promessa de reembolsá-los assim que entrasse o dinheiro das contribuições mensais dos demais associados. 
.../...
19:43 (0 minutos atrás) 

disponível Adaexcluir

.../...
Meu padrasto argumentou, depois de muita discussão, que dinheiro não tinha o endereço escrito em cima e que, coleta para pagar pequenas contas quando havia dinheiro em caixa era má administração.
Foi o começo do forrobodó. 
Seu Darcy enfezou-se e quis partir pra briga, entrou a turma do deixa-disso e a coisa acabou se aquietando, mas, o mal estar ficou. Fizeram uma reunião para promover a paz e, entre pisando em ovos e luvas de pelica, os dois se acertaram.
Acertaram-se mas continuaram cheios de dedos, com seus "por favor", "por obséquio", "a ideia foi sua", "o crédito é seu", enfim, um mundo de cuidados e frescuras para não ferirem o ego um do outro.
Duas ou três reuniões após a "guerra", porque a noite estava muito fria e úmida, apesar da sede social ficar a uns cem metros de distância meu padrasto foi com seu "Renault 1950" para a reunião. O pátio estava praticamente vazio. Só havia um carrinho estacionado lá. Um carrinho mal cuidado, sujo e cheio de bugigangas dentro. Meu padrasto estacionou bem ao lado do carrinho e entrou na sede.
Suas primeiras palavras aos dois ou três membros da diretoria que já se encontravam na sala: "Puxa! De quem é aquela "bicheira" que está no pátio? Deixei meu carro perto e tenho medo até que pegue alguma ferrugem!." 
Diante do mal disfarçado mal estar dos presentes, seu Darcy pronunciou-se: "É meu, seu Carpinelli", sorrindo meio sem graça.
"Ô, seu Darcy, desculpe, eu estava brincando. Não sabia que o carro era seu."
E seu Darcy, feliz da vida com o "mico" pago pela desafeto:
"Que nada, seu Carpinelli, o carro tá precisando de uma boa escovada mesmo".



Escrito por ac.polari às 19h47
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Coisas da Propaganda

Não sei bem se são coisas da propaganda ou da saga da família.
Nas décadas de 60 e 70, por força de ter quatro crianças para cuidar, fui muito partidária da tevê ligada a maior parte do tempo. Era a babá que prendia a atenção da gurizada enquanto eu fazia os trabalhos de casa e podia tê-los sob os olhos.

Minha filha mais velha nasceu em agosto de 1964 e foi única até janeiro de 1967, quando nasceu a segunda. Um ano e sete meses depois vieram os gêmeos. Dá para imaginar a trabalheira!

Dóris, a mais velha, prestava muita atenção nas letras. Era uma intelectualzinha desde os dois anos de idade; falava tudo irritantemente certinho (com erres e esses) e vivia mostrando letras nas revistas e jornais e perguntando:"Mamãe, pra que serve esta?" E eu informava, por exemplo que era um R e servia para escrever o nome da flor, Rosa.

De pergunta em pergunta a danadinha foi formando seu "arquivo" mental e quando percebeu que não aparecia mais nenhuma letra nova, começou a me perguntar "e esta perto desta faz o que?" Ou seja, a bandida intuiu a sílaba. Aos dois anos e oito meses já conhecia todo o alfabeto e sabia juntar vogais e consoantes.

Nessa ocasião, passava na tevê uma propaganda da Cica: era um desenho animado mostrando um restaurante. O homem de uma das mesas pedia Catchup e o garçon trazia o Catchup da Cica. Na mesa ao lado levantava-se outro homem, roubava o frasco de catchup e saia dizendo:"É Cica? Também quero".
.../...


Escrito por ac.polari às 22h58
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Dóris gargalhava ao assistir à propaganda. Nessa época ela ainda não havia mostrado interesse pelos nomes e serventias das letras. Estava com dois anos.

Como meu marido era filho único eu sempre fiz questão de ir à casa de meus sogros todas as semanas. Ia na sexta-feira, com minha filha em pé no meu colo e mexendo com todo mundo no ônibus, passava o dia com minha sogra e meu sogro e, à noitinha, no final de seu dia de trabalho meu marido ia para lá também. Jantávamos e voltávamos juntos para casa.

Sempre voltávamos tarde, porque o dia seguinte sendo sábado, podíamos ficar na cama um pouco mais. Era de se esperar que Dóris viesse no ônibus de volta para casa, apagadinha, sonolenta ou dormindo. Mas, não! Ela vinha tão acesa quanto tinha ido. Pulando no último banco do ônibus e bagunçando.

Aconteceu de passarmos por um edifício que, no alto, tinha o nome CICA em letras luminosas vermelhas. Pela avenida em que nosso ônibus passava, estávamos na parte traseira do prédio, de maneira que a palavra aparecia escrita "espelhada", ou seja, ao contrário. Pois a danadinha da menina, olhando pelo vidro traseiro do ônibus reconheceu a palavra que tinha visto na televisão e imediatamente gritou:
A LÁ, MAMÃE: KICA, TAMBEM QUÉIO!


Escrito por ac.polari às 22h58
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A amiga Adayl

Conheci Adayl quando ambas tínhamos 10 anos e cantávamos no Clube Papai Noel, da rádio Tupy de São Paulo.
Depois inauguraram a televisão em São Paulo e criaram a "Gurilandia", que era o Clube papai Noel da tevê.
E as duas cantávamos em programas alternados. Éramos um pouco parecidas e a tevê preto e branco fazia com que pessoas nos confundissem.
Algumas juravam ter me visto em dias em que era ela quem cantava.

Nossa amizade prosseguiu depois que deixamos os sonhos artísticos de lado. Foi Adayl quem sugeriu a meu padrasto que me desse o primeiro violão
 de presente quando completei os dezesseis anos.
Algum tempo depois ambas mudamos de Pinheiros. Cada uma foi pra um lado de São Paulo e ficamos alguns anos sem nos vermos.
A última vez que nos vimos, ela estava casada há um ano e eu ha seis meses. Depois, por mais de quarenta anos nada soubemos uma da outra.

Um dia procurei na lista telefônica por seu nome. Desconfiava que estivesse morando no Rio de Janeiro. E estava.
Achei o endereço e o telefone e liguei para lá.
Triste surpresa: Adayl havia morrido de câncer dois anos antes.
Eu teria preferido ficar sempre com a pergunta "onde está você, Adayl?", do que ter a certeza triste de saber onde ela está.


Escrito por ac.polari às 22h53
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Vizinhos

Morei trinta anos em um apartamento e tive vizinhos muito bons e outros, nem tanto. Também devo ter causado esse mesmo tipo de impressão nestes e naqueles.
Eram doze apartamentos mas tenho a impressão de que o apartamento 21, no segundo andar, foi o premiado. Enquanto moramos lá, no apartamento 21 só morou gente boa.

Primeiro foi d. Aurora, viúva e mãe de um filho casado, morava sozinha no prédio. Senhora discreta, culta e educada. Quando vendeu o apartamento ficamos imaginando que tipo de vizinho mudaria para lá. E a surpresa foi muito boa!

Chegaram d. Diva e seu José. Ambos idosos, mas não demais. Os filhos também casados, não moradores no prédio.
Dona Diva e seu José eram super simpáticos. Nunca se ouviu uma discussão entre os dois; entendiam-se às maravilhas. Além de tudo, eram alegres e cooperativos. Sempre dispostos a ajudar no que o prédio precisasse: uma troca de lâmpadas, uma varridinha no elevador quando algum vizinho "distraído" deixasse marcas de sua passagem sem as limpar, e, entre dona Diva e eu, muita troca de amostras de crochê.

Mas, como tudo um dia se acaba, seu José ficou doente e faleceu.
Na véspera de sua missa de sétimo dia sonhei com ele. Surgiu do nada, sentou-se ao meu lado e me pediu: "Diz pra Diva que eu estou bem". E ao mesmo tempo colocou sua mão sobre a minha, dizendo:"Pegue a minha mão.Veja como está quentinha". Em seguida, ainda juntou: "Fala pros meninos não deixarem a Diva sozinha, pra ela não ficar triste". E o sonho acabou...

Dia seguinte, logo cedo, fui contar à vizinha, o sonho. Dentro de sua tristeza, ela sorriu. E esclareceu que quando seu José saia para o trabalho ela insistia em que ele levasse um agasalho, porque não queria que os colegas pensassem que ela não cuidava bem dele (rs).
Ele, como não sentia frio, ia sempre em mangas de camisa; pegava a mão dela e dizia:"Não precisa, Diva. Eu não estou com frio. Pega minha mão. Veja como está quentinha".


Escrito por ac.polari às 20h04
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Brincadeiras e brinquedos

A gente brincava de tantas coisas...
Pular corda, bater peteca, pegador, tanta coisa... Mas o que eu gostava mesmo era de brincar de casinha.
Tudo era improvisado, menos a boneca. Às vezes, até a boneca, pois minha mãe me fazia "bruxinhas" de pano que eu amava como se fossem bonecas de louça.
Nossas "casinhas" eram um quadrado riscado no chão de terra, mantendo uma certa distância da casa da outra "comadre" para podermos nos visitar.

A mesa era uma tábua posta sobre quatro tijolos, ou latas de leite em pó vazias. A cama das bonecas podia ser uma almofada velha ou um pedaço de coberta dobrado, pra ficar fofinho. O que fosse de pano, lençol, toalha de mesa, colcha, era fácil de conseguir, já que nossas mães e avós costuravam para a família e sempre nos arranjavam pedaços de pano para dar asas às nossas imaginações.

O que mais me dá saudade, hoje, era o nosso enfeite de mesa: eram flores do mato, daquelas que os adultos não colhiam porque não duravam fora da planta. Minúsculas e de uma cor rosa pink na ponta de um caulezinho tão fino que um vento mais forte podia quebrar. Tinham também umas sementinhas amarelas, bem redondinhas e de casca firme e folhinhas muito verdes.
Colhíamos alguns galhinhos delas e folhas compridas de capim para completar o "ramalhete" e levávamos ao "vaso": um vidro vazio de "Leite de Magnésia de Phillips" que, com sua cor azul brilhante dava o contraste perfeito para nossas florezinhas parecerem coisa de floricultura.

Aqui por perto descobri muitas daquelas florezinhas e senti saudade dos tempos em que brincava de casinha. Quase colhi algumas para enfeitar a minha mesa, mas agora os frascos de Leite de Magnésia de Phillips são de plástico e sem brilho. Desisti. Não seria a mesma coisa.


Escrito por ac.polari às 20h00
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Zé Perú

Zé Perú, ou Zé Batateiro, descendia de portugueses.

Como o segundo apelido informava, vendia batatas em sua pequena carroça puxada por um velho e cansado cavalo. O primeiro apelido vinha do fato de ter pele muito clara e cabelo loiro. Por força de seu trabalho tomava muito sol, e seu pescoço era muito vermelho. Daí a começarem a chamá-lo de Zé Peru, foi um curto passo.

Zé Perú estava noivo, com data marcada para o casório e tudo, quando foi chamado para a guerra. Sim, ele foi um dos pracinhas brasileiros usados como bucha de canhão para a tomada de Monte Castelo.

E lá se foi Zé Perú juntar-se às tropas brasileiras, deixando mãe, irmãs, tias. avó, e a noiva. Um séquito de mulheres esperando, rezando e chorando por ele...

Passaram meses. A simples e barrenta rua Cecília, onde morava Zé Perú e mais, talvez, uma dúzia de famílias, continuava quieta e calma. Pela manhã só o latido dos cachorros dava um tom de vida ao lugar. Os homens dedicavam-se ao trabalho de suas hortas, suas construções e consertos, e, aqueles que ainda tinham idade para trabalhar, iam para seu trabalho, para voltar na hora do almoço. As mulheres cuidavam da casa, de mandar os filhos para a escola, de preparar o almoço para a família como se não houvesse guerra. À tarde, quase no final do dia, os mais velhos punham cadeiras na frente das casas e trocavam idéias enquanto as crianças brincavam no meio da rua poeirenta. Falava-se da guerra, dos filhos e maridos que estavam longe de casa, dos cartões de racionamento da comida, do leite, da gasolina... Falava-se da saudade e da esperança.

Uma tarde, depois que o carteiro passou e entregou um telegrama oficial na casa de Zé Perú, a rua inteira ouviu, perplexa, os gritos de dor de dona Emília, sua mãe. Primeiro foram gritos lancinantes, como urros de dor de uma fera cuja cria lhe fora roubada. Depois os gritos deram lugar a soluços secos e suspiros. Finalmente dona Emília foi sentar-se na frente de sua casa segurando o telegrama nas mãos. O telegrama que informava a morte de seu filho.

Depois do primeiro impacto as coisas foram voltando ao normal na nossa tranquila rua Cecília. A família de Zé Perú foi, aos poucos, se conformando. Dona Emília já não rompia em prantos quando falava no "meu Zé", a noiva continuava fiel à sua memória, pobre viúva sem ter sido esposa...

E eis que, quando ninguém esperava pela surpresa, num meio de dia cheio de sol, aparece na rua, com passos trôpegos e cansados, levando às costas sua mochila com poucos pertences, o Zé Perú. O Zé Batateiro vivinho da Silva, produto de um engano do departamento da guerra. Depois do susto inicial, a felicidade de dona Emília era impossível de descrever. Mas durou muito pouco.A surpresa, o susto, a alegria, foram demais para dona Emília. Poucos dias após a volta de Zé Perú, ela teve um ataque cardíaco. Seu coração não aguentou tantas sensações contraditórias e parou de vez.

Zé Perú casou-se com a noiva fiel e a vida continuou. Mas ele nunca mais foi o mesmo. Seu ollhar ficava sempre perdido no horizonte e ele tinha momentos de ausência total. E voltava deles com uma lágrima rolando pela face. Dizia que, se tivesse morrido quando os papéis oficiais o declararam morto, a mãe ainda estaria viva.



Escrito por ac.polari às 22h10
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o menino que não gostava do seu nome

Meu neto costuma fazer seus trabalhos em equipe para a escola em sua casa.
Minha nora prefere que seja assim porque pode orientar a criançada e evitar que o trabalho escorregue do sério para a brincadeira e, daí, para a bagunça.

Cheguei para uma visita num sábado à tarde quando os meninos estavam fazendo um trabalho. Minha nora, que faz questão que o menino cresça com noções de boa educação, dise a ele que apresentasse seus amiguinhos à avó.

-Este é o André, este é o Rafael e aquele ali é o Altair. (E para os amigos) Pessoal, esta é a minha avó.

Os meninos se aproximaram e cumprimentei cada um deles: André. Você tem o mesmo nome que meu pai. Oi Rafael, tenho um grande amigo que se chama Rafael, sabia?
Quando chegou a vez de Altair, eu disse: Altair! Que nome bonito! Sabe que você tem o nome de uma estrela?

-Estrela? Eu tenho nome de estrela? ele perguntou desconfiado.
Confirmei. Disse que seu nome pertencia a uma estrela da Constelação de Órion e, para provar, mostrei-lhe o verbete da enciclopédia. Li para ele que Altair era uma estrela de primeira grandeza, embora não soubesse explicar o que isso significa - nunca fui boa nesses assuntos de estrelas e constelações.

Altair ficou todo orgulhoso. Pelo resto da tarde "exigiu" dos colegas o devido respeito, pois tinha o nome de uma estrela "de primeira grandeza".
Minha nora e neto moravam com minha mãe e eu ia todos os sábados ver mamãe e passar a tarde com ela.
Quando voltei no sábado seguinte, minha nora tinha um recado da avó do Altair para mim. Dizia que me agradecia muito porque o menino tinha raiva de ter um nome incomum.  Todos os seus amigos eram Robertos, Ricardos, Mateus, Rafaéis, Albertos, nomes provindos de personagens de novelas, jogadores de futebol e artistas de cinema e televisão. Só ele é que tinha que se chamar Altair.
Segundo a avó, ele chegou em casa todo contente, informando: "Vó, a senhora sabia que eu tenho o nome de uma estrela? A vó do Fábio me mostrou até a enciclopédia"
E foi logo anunciando que agora queria ser chamado pelo seu nome, nada de apelido. De nada adiantou a avó tentar explicar que ele tinha aquele nome em homenagem a um ator de teatro e tevê, que se chamava Altair Lima! Refugando a explicação, ele disse:
"Artista, coisa nenhuma. Eu tenho é nome de estrela. E DE PRIMEIRA GRANDEZA!
 


Escrito por ac.polari às 19h57
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"TRILIDUEI"

Vendo um filme antigo cheio de canções e de sapateado, lembrei deste fato ocorrido nos meus tempos de Clube Papai Noel.
Embora sapateado não fosse exatamente próprio para programa de rádio, o que era o caso do Clube papai Noel, havia uma menina chamada Dulcinéia que cantava e sapateava. Quem estava no auditório via o sapateado e quem estava em casa ouvia o barulho das chapinhas batendo no chão.
Dulcinéia comparecia ao programa poucas vezes e interpretava sempre a mesma música.
Quando Homero Silva perguntava o que ela ia apresentar ela respondia: Vou cantar e sapatear "Triliduei".
Acho que eu não era a única a ficar intrigada com o diabo do nome da música, mas ela cantava (crente de que estava falando inglês), repetindo as palavras que "decorava" do disco. Naquele tempo, com certeza, aqueles "bolachões" 78 RPM da RCA Victor, que chamávamos carinhosamente "erre chiá Victor", porque chiava mesmo. Sem dúvida, repetia da forma que entendia. E, mais certamente ainda, não tinha a menor idéia do idioma inglês.
Cantei no Clube Papai Noel por 3 anos. Durante esse tempo inaugurou-se a televisão e Dulcineia teve, enfim, a oportunidade de passar a figurar a turma do "Gurilândia", nome que o programa assumiu na tevê. Volta e meia lá vinha ela com seu "triliduei" e, nessas alturas eu já estudava inglês e não achava uma só palavra que me explicasse o que significava aquilo.
Saí do Clube, deixei de cantar no Gurilândia, nunca mais ví Dulcineia.
Um belo dia, através do rádio, ouvi a melodia do "triliduei" sendo cantada em inglês. Parei. Esperei a música acabar e a voz do locutor anunciar:
Acabamos de ouvir, "THREE LITTLE WORDS", I Love You.
Solvido no mistério. No more comments.


Escrito por ac.polari às 19h36
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Rua Itaboca

Ando cheia de lembranças...
Este fato me veio à lembrança por causa de uma discussão sobre pornografia.
No meio das respostas e respostas de respostas, ocorreu-me recordar deste episódio.
Eu estava no bonde "CasaVerde" junto com mamãe. Mal havia iniciado meu aprendizado de leitura, ainda precisava juntar uma consoante a uma vogal para formar uma sílaba e lia bem devagar.
Devagar ia também o bonde, subindo a rua Afonso de Taunay em direção ao Largo São Bento, seu ponto final. Eu, com minha curiosidade dos 7 anos, grudava os olhos em tudo o que via e, claro, tentava ler já que a pouca velocidade do bonde me permitia.
Essa rua tinha muitas ruazinhas que a cruzavam e o nome de uma delas chamou minha atenção. Talvez por começar com uma vogal sem uma consoante antes, como eu estava habituada a ver. E comecei a ler baixinho I, T, A...Nesse ponto achei que devia mostrar à minha mãe como eu estava bem de leitura.
"Olha, mamãe, o nome da rua é I ta bo..."
E minha mãe: "Adalgisa, NÃO!"
Atônita, eu não entendia por que mamãe não queria que eu lesse o nome da rua. Logo, continuei:
"Olá, mamãe, rua I ta bo ca..." Só então, acendeu uma luz no meu cérebro.
A Rua Itaboca, junto com a Rua Aymorés, eram confinadas ao meretrício. Claro que eu não tinha a menor idéia do que fosse isso, mas sabia que coisa boa não era, porque quando alguém queria ofender alguém, dizia que ela, sua filha, sua irmã ou sua mãe, era "puta da rua itaboca".
Como, desde aquele tempo, eu não falo baixo, quem me ouviu caiu na risada. Mamãe não sabia onde por a cara e eu me calei pelo resto do caminho.


Escrito por ac.polari às 17h56
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Colibris

Era dia 14 de agosto de 1968 e eu estava conversando com minha vizinha do lado, d. Filó.

Quarta-feira pela manhã, dia de feira na avenida, duas  quadras acima. Eu, grávida em final de gestação, ostentava uma barriguinha quadrada e estranha, como se tivesse colocado uma caixa de papelão embaixo do vestido largo, encostada no muro que separava as duas casas, d. Filó do outro lado do muro, batíamos nosso papinho diário, enquanto cumprimentávamos o pessoal que ia para a feira e voltava dela. Assunto corriqueiro, coisas das nossas casas e famílias. Dona Filó, costureira de mão cheia, não era de comentar a vida alheia, um pouco porque era uma ótima pessoa e outro, porque comentários poderiam, prejudicar os negócios: ninguém quer saber de uma costureira que espalha novidades sobre as clentes.

A manhã era quente e ensolarada, coisa inusitada num mês de agosto. Enquanto trocávamos idéias, d. Filó chamou a minha atenção: "Olha aí, d. Adalgisa, a felicidade entrando pela porta da sua sala." Olhei para a sala e ví dois colibrís que entraram porta adentro, fizeram uma revoada pela sala e saíram, tão rápido quanto haviam entrado. Ainda comentei, em resposta: "Felicidade em dobro, porque são dois beija-flores".

Logo entrei porque o sol estava muito quente, e o dia me acompanhou na minha espera...

A noite foi mais quente do que havia sido o dia. Eu que já estava de malas prontas para a maternidade desde os sete meses, tomei um belo banho, prendi os cabelos para não sair mal arrumada caso a "cegonha" mandasse o aviso de entrega, preparei uma jarra de dois litros de laranjada, que acabei tomando sozinha porque ninguém esta a fim de me acompanhar, e fiquei vendo tevê até tarde.

No meio da madrugada acordei com a "intuição" de que logo teria meu terceiro bebê nos braços. Fomos para a maternidade logo cedo e às 7:25 da manhã entendi o porque dos dois colibrís terem entrado na minha sala na manhã anterior:com um intervalo de cinco minutos entre um bebê e outro, a "felicidade" me entregou Daniel Adriano e Danilo Renato, que hoje completam seus 42 anos.

Parabéns meus filhos e muito obrigada por terem escolhido a mim para trazê-los a este mundo.

 



Escrito por ac.polari às 11h10
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O Meu Pai

Esse fato aconteceu quando eu tinha pouco mais que 3 anos de idade.
Era sábado de manhã e eu "resolvi" ajudar papai a ajudar mamãe nas tarefas da casa.
Como os dois trabalhavam fora durante toda a semana e mamãe trabalhava também no sábado até o meio-dia, aos sábados papai começava cedo a por a casa em dia.
Ele, meu irmão e eu arrumávamos nossas camas e a minha tinha sempre que ser arrumada de novo, porque eu não sabia estender direito os lençois, mas fazia questão de fazer a minha parte nos serviços da casa. Depois íamos de cômodo em cômodo da casa varrendo, espanando e arrumando vasinhos e enfeites no lugar.
Por último ficava a cozinha. E naquele sábado, juntando a louça do jantar e a do café da manhã, havia bastante louça para lavar. E eu, é claro, queria porque queria lavar a louça. Papai não consentiu dizendo que eu ia acabar quebrando um prato ou copos e me machucando.
Não me dei por vencida: pelo menos os talheres eu tinha que lavar. Papai concordou, mas retirou as facas, o que me deixou danada da vida: "Você pensa que eu não sei fazer nada?" perguntei furiosa, em pose de açucareiro, com as mãos na cintura.Não consegui convencê-lo a me deixar lavar as facas, mas ganhei a possibilidade de lavar as tampas das panelas.
Mal conformada com a troca, comecei a fazer minha parte. Lavei e "areei" com sapólio (em barra) todas as tampas de panela e as collheres e garfos. Quando terminei chamei papai e perguntei, toda contente: "Tá bom assim, papai?"
Ele examinou com cuidado tudo o que eu havia lavado e ficou tão satisfeito com o resultado que saiu pela rua com as colheres e os garfos nas mãos mostrando, de casa em casa, o belo trabalho que eu havia feito.
Nada supera a alegria de perceber o orgulho do pai pela gente.


Escrito por ac.polari às 17h22
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A camélia que caiu do galho

Não é preciso saber muito de mim para perceber que gosto de música e adoro cantar.
Não sou perfeccionista em quase nada, mas música é uma coisa que me fascina, especialmente, na musica popular, as letras das músicas. Estou sempre cantando.
Até já brinquei muito com esse meu costume, dizendo que canto para não falar sozinha.

E canto desde pequenina. Prova disso, é que mamãe contava um fato engraçado, mais uma das minhas histórias.
Estava ela aproveitando sua manhã de domingo para lavar a roupa da semana. Ela torcendo a roupa e pendurando no varal e eu, pouco além dos dois anos de idade, sentada num lençol estendido sobre a grama, brincava com meus badulaques.

Mamãe trabalhava cantando. Deve ser mal de família. Mas estava prestando atenção ao que fazia e às vezes se distraía e parava de cantar. Pior. Parava de cantar cortando a frase musical no meio. E isso, já naquela minha tenra idade, me incomodava. Eu queria a frase completa; nada de cortes.
E ela pendurava uma peça de roupa cantando a "Jardineira".
"Ó jardineira por que estás tão triste,
Mas o que foi que te aconteceu?
Foi a camélia que caiu do galho..."

E parou aí! Como? É só isso? Cadê o resto?
Eu sabia que tinha mais, já conhecia a música e tinha boa memória.
Esperei um pouco e, como o silêncio se estendesse, "tasquei" o resto da sentença:
"...deu doi pipilo..."
E estava pronta para continuar, se mamãe não tivesse parado tudo o que estava fazendo e não tivesse vindo, correndo, me pegar no colo e me encher de beijos.


Escrito por ac.polari às 19h20
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Mestres que relembro com carinho

Que bom que tivemos professoras e professores que souberam marcar a nossa vida.
Eu tive dois, uma professora e um professor que, em momentos diferentes, porém igualmente importantes da minha vida,souberam dizer a frase precisa para que eu aprendesse a encarar aqueles momentos que estava vivendo.
A primeira foi dona Judite.
Logo em seguida à dona Edite, a triste e infeliz professora do terceiro ano, no quarto ano do grupo escolar tive o privilégio de ser aluna de dona Judite, que só coincidia com a outra na rima do nome. No mais era bem diferente.
Calma, ponderada, nunca se descontrolava ou levantava a voz em sala de aula.Falava com doçura e todas nós, suas alunas, lhe dávamos atenção.
A média de idade das meninas era de 12 anos. Estávamos naquela idade em que cada palavra fazia diferença e a palavra "sexo" fazia mais diferença que todas as outras. Minha mãe que era uma pessoa inteligente e esclarecida, em matéria de sexo ainda estava uns trezentos anos atrasada. Quando fiz 11 anos, pôs na minha mão um livro que se chamava "A Nossa Vida Sexual" e me disse: Leia e se você tiver alguma dúvida, me pergunte". É claro que não li e não entendi, mas também não perguntei absolutamente nada. E mamãe sentiu que havia cumprido sua missão esclarecedora.
Dona Judite, porque sabia que a maioria das mães de suas alunas eram bem parecidas com a minha, pediu,junto à Johnson & Johnson (que produzia o primeiro absorvente íntimo de que se tinha notícia), um livrinho chamado "Ser Quase Mulher e Ser Feliz", onde explicavam a mudança de funcionamento do nosso corpo adolescente e os cuidados que se devia tomar a partir de nossa primeira menstruação.
.../...


Escrito por ac.polari às 18h51
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